
O debate sobre os efeitos de adoçantes no organismo voltou à tona depois que pesquisadores da Universidade do Chile associaram estévia e sucralose a alterações metabólicas transmitidas entre gerações de camundongos.
A repercussão do estudo publicado na revista Frontiers in Nutrition reabriu a comparação entre os dois adoçantes e recolocou o cultivo da planta no radar de quem avalia diversificar a produção.
Apesar de aparecerem juntas no mesmo estudo, estévia e sucralose têm origens opostas: a primeira é extraída de uma planta; a segunda é produzida sinteticamente a partir da sacarose da cana-de-açúcar em processo industrial que altera a molécula original. Essa distinção sustenta o apelo de “natural” que favorece a estévia no mercado consumidor.
A Stevia rebaudiana é nativa da fronteira entre Brasil e Paraguai e já é cultivada comercialmente no Paraná e em Mato Grosso do Sul. De acordo com a Embrapa Agropecuária Oeste, a planta produz esteviosídeo, composto cerca de 300 vezes mais doce que o açúcar da cana, sem impacto calórico relevante.
Diferentemente de culturas de ciclo curto, a estévia exige planejamento de médio prazo antes de gerar retorno. O primeiro corte ocorre entre três e quatro meses após o plantio, com até quatro colheitas por ano e permanência produtiva de cinco anos no campo, conforme orientam os pesquisadores da instituição.
O estudo aponta que a sucralose provocou alterações mais intensas e persistentes na microbiota e no metabolismo do que a estévia, mesmo nas gerações que não tiveram contato direto com os adoçantes. O achado reforça o apelo comercial do produto natural frente ao sintético.
O mercado global de estévia deve crescer de US$ 0,93 bilhão em 2025 para US$ 1,71 bilhão até 2031, segundo levantamento da Mordor Intelligence. Portanto, a valorização do rótulo “adoçante natural” tende a sustentar a demanda da indústria por matéria-prima nacional, reduzindo a dependência de folha importada do Paraguai e da Argentina.
Para o produtor de pequeno e médio porte, a estévia funciona como cultura de agregação de valor em pequenas áreas, sem substituir grãos ou pastagem em larga escala. Ainda assim, o cultivo exige solo leve e bem drenado, pH entre 6,0 e 7,5, alta luminosidade e ausência de geadas severas – condições que limitam a expansão a regiões subtropicais como Paraná, Mato Grosso do Sul e parte de Goiás.
Antes de investir, o produtor precisa avaliar três pontos: a existência de contrato prévio com processadora, já que o Brasil tem apenas uma fábrica de beneficiamento em operação; o custo de implantação distribuído em cinco anos de produção; e a exigência de secagem adequada das folhas antes da entrega – etapa que determina o preço pago pela indústria.
A decisão de investir em estévia depende menos do preço momentâneo do açúcar e mais da garantia de escoamento da produção. A seguir, os critérios que funcionam como filtro prático antes do plantio:
A decisão de investir em estévia compete, na prática, com outras culturas de agregação de valor em pequena escala. Antes de comprometer área, o produtor pode consultar um guia sobre estratégias de diversificação de culturas e riscos para dimensionar o espaço ideal na propriedade. Vale também comparar o retorno esperado com o de outras culturas de ciclo curto usadas para diversificação de renda na mesma área.
Além da origem vegetal, a estévia carrega sabor residual amargo em concentrações maiores, o que limita seu uso em bebidas mais delicadas, enquanto a sucralose mantém sabor neutro mesmo em altas doses. Por isso, a indústria alimentícia ainda combina os dois adoçantes em muitas formulações.
A formação da lavoura depende de mudas por estaquia, e não de sementes, já que a estévia apresenta baixa taxa de germinação natural. Assim, o planejamento inicial da área leva em conta o tempo de produção das mudas em viveiro antes do transplante para o campo.
Mesmo nas regiões favoráveis, a tolerância à geada varia conforme a variedade plantada, segundo estudos da Universidade Federal do Paraná. Dessa forma, produtores de áreas limítrofes ao clima ideal devem escolher genótipos mais resistentes ao frio antes do plantio.
Sem contrato firmado, o produtor corre o risco de acumular folha seca sem comprador, já que a estévia não possui indicador de preço no CEPEA/Esalq nem em outra bolsa de referência no Brasil, ao contrário do que ocorre com soja, milho ou café, por exemplo.
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