
A aviação no mundo todo corre contra o tempo para diminuir a poluição até 2050. No centro dessa mudança, o agronegócio brasileiro surge como o principal fornecedor mundial do combustível sustentável de aviação, conhecido pela sigla SAF (do inglês Sustainable Aviation Fuel).
Para o produtor rural brasileiro, o SAF não é apenas um assunto sobre proteção ao meio ambiente: é a abertura de um mercado gigantesco e uma excelente forma de variar e aumentar a renda da propriedade.
Recomendação para o produtor: o mercado de SAF vai exigir matéria-prima com origem comprovada. Comece desde já a organizar as anotações da sua propriedade, deixe o seu Cadastro Ambiental Rural (CAR) em dia e adote boas práticas de cuidado com a terra. Quem tiver os dados bem registrados poderá receber um valor adicional na hora de vender a colheita.
O SAF é um biocombustível moderno feito a partir de fontes que se renovam, como óleos vegetais, gordura animal e restos da produção agrícola. Diferente do querosene de aviação comum, que é uma derivação do petróleo, o combustível verde consegue reduzir em até 80% o lançamento de gases poluentes na atmosfera ao longo de toda a sua vida útil.
Na prática, o SAF é um combustível “pronto para uso” (conhecido no exterior pelo termo drop-in). Isso quer dizer que ele tem características químicas iguais às do querosene comum, podendo ser misturado e usado nos aviões de hoje em dia sem precisar mudar os motores ou a estrutura de abastecimento dos aeroportos.
O Brasil tem uma vantagem que quase nenhum outro país possui: conseguimos produzir a matéria-prima necessária para o SAF em grande quantidade, durante o ano todo, usando diversas plantações e reaproveitando sobras.
Entenda como o trabalho no campo se transforma no combustível dos aviões:
| Matéria-prima | Processo de transformação na indústria | Oportunidade para o Brasil |
|---|---|---|
| Cana-de-açúcar e milho | Álcool para jato (Alcohol-to-Jet – AtJ) | Altíssima. É a transformação do etanol comum em querosene verde. As usinas brasileiras já têm estrutura pronta para aumentar essa produção. |
| Soja, macaúba e palma | Processamento de óleos e gorduras (HEFA) | Consolidada e promissora. A soja lidera hoje, mas plantas que duram vários anos, como a macaúba, ganham força porque ajudam a recuperar pastos desgastados. |
| Sebo bovino e suíno | Processamento de óleos e gorduras (HEFA) | Muito lucrativa. Valoriza de forma imediata as sobras da pecuária, transformando o que era um problema de descarte em um produto de alto valor. |
| Sobras da lavoura (palha e bagaço) | Etanol celulósico (de segunda geração ou 2G) | Inovação tecnológica. Usa as sobras das colheitas para gerar um novo tipo de etanol, que depois vira SAF, sem precisar plantar em novas áreas de terra. |
O agricultor e o pecuarista são o coração dessa nova cadeia produtiva. Afinal, sem o que é colhido e criado no campo, não existe combustível verde. A maior oportunidade de ganho financeiro está nos contratos de fornecimento garantido a longo prazo.
Para pequenos e médios produtores, a melhor porta de entrada são as cooperativas e as empresas integradoras. Como as fábricas de combustível verde são indústrias gigantes, elas não compram de um produtor só, mas sim de grandes grupos.
Se você produz soja, milho, cana ou cria animais de forma organizada e unida à sua cooperativa, sua produção vai se juntar à de outros vizinhos para alcançar o volume necessário que essas grandes indústrias compram.
Outro ponto muito positivo é a valorização de produtos que antes rendiam pouco ou eram simplesmente descartados, como a palha do milho, o bagaço da cana e o sebo dos animais. Isso cria a chance de ganhar um dinheiro extra por hectare plantado ou por animal abatido.
A entrada no mercado mundial de combustíveis para aviação exige muita organização da porteira para dentro. A regra principal será a comprovação de boas práticas no campo e o rastreio de toda a produção.
Os países da Europa e os Estados Unidos, que são os maiores compradores, cobram certificados bastante rigorosos. Isso significa que os grãos ou a gordura animal não podem, de jeito nenhum, vir de áreas recém-desmatadas de forma irregular ou com problemas de documentação de terras.
O produtor vai precisar usar sistemas simples de anotação no computador ou no celular e contar com tecnologias de registro seguro (como o blockchain, que funciona como um livro-caixa digital à prova de fraudes) para provar a origem de cada tonelada produzida. O agricultor que mantém a documentação em dia e cuida da terra vai sair na frente.
O etanol comum é oriundo do caldo da cana ou do grão do milho. O etanol de segunda geração (2G) vem das sobras e palhadas dessas plantas, o que aumenta a produção de combustível no mesmo pedaço de terra. O SAF é o combustível de avião que, no fim da linha, pode ser fabricado a partir desses dois tipos de etanol ou a partir de óleos vegetais e gordura animal.
Sim, as grandes refinarias compram a matéria-prima de cooperativas, armazéns e usinas da região. Produtores organizados em grupos, que cuidam bem da terra e estão com o Cadastro Ambiental Rural (CAR) em dia, poderão vender sua produção com um valor a mais pelo cuidado com o meio ambiente.
Existem regras internacionais importantes que a indústria exige. Para o produtor rural, o foco no dia a dia é garantir que é possível provar de onde o grão ou o animal saiu, comprovar que não desmatou a área ilegalmente e manter as regras e os direitos dos trabalhadores rurais em dia. O básico bem feito será o passaporte para essas vendas.
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