A acrobata russa Mariia Konfektova processou o Cirque du Soleil após sofrer uma queda de aproximadamente 4,5 metros durante uma apresentação nos Estados Unidos. A artista pede US$ 16,75 milhões em indenização, valor equivalente a cerca de R$ 86 milhões na cotação atual.
O acidente aconteceu em agosto de 2024, durante uma apresentação do espetáculo Kooza no Portland Expo Center, no estado do Oregon. Konfektova realizava movimentos em um aro suspenso e giratório quando perdeu o apoio e caiu sobre o palco diante do público.
Segundo a ação, não havia rede, colchão ou outro sistema de proteção instalado abaixo do equipamento. A artista sofreu 11 fraturas, passou por diferentes cirurgias e afirma que ainda enfrenta sequelas que dificultam sua vida cotidiana e o retorno à profissão.
As acusações ainda serão analisadas pela Justiça. O Cirque du Soleil informou à imprensa norte-americana que tem conhecimento do processo, mas que não comenta ações judiciais em andamento.
O processo detalha que Konfektova sofreu fraturas no crânio, no pulso, na região lombar e em pelo menos sete ossos do rosto. A queda também teria provocado concussão e visão dupla.
A artista afirma que continua convivendo com problemas na mandíbula, na respiração, na simetria facial e na visão. Novos procedimentos médicos ainda seriam necessários para tratar parte das lesões.
Em uma campanha criada para arrecadar recursos, Konfektova relatou dificuldades médicas, financeiras, migratórias e relacionadas ao seguro de saúde. Ela diz não ter conseguido retornar plenamente à profissão enquanto aguarda novas cirurgias.
Para uma acrobata aérea, as consequências ultrapassam o período de internação. A carreira depende de força, equilíbrio, coordenação e mobilidade, e uma lesão permanente pode comprometer anos de treinamento e a principal fonte de renda da artista.
Mariia Konfektova caindo em apresentação/Imagem: Divulgação
Na ação, Konfektova acusa o Cirque du Soleil de negligência e sustenta que a companhia não forneceu equipamentos suficientes para reduzir as consequências de uma possível queda.
Ela também afirma ter manifestado preocupações antes do acidente. Entre os problemas relatados estavam o peso do aro e o posicionamento do sistema de cabos usado para suspender o equipamento.
Segundo o processo, o aro utilizado na apresentação seria mais leve do que o solicitado pela acrobata, enquanto um dos componentes do sistema estaria cerca de 60 centímetros fora do centro. Essas condições teriam alterado o comportamento do equipamento durante as rotações.
Konfektova chegou a retornar às apresentações depois da recuperação inicial, mas continuou levantando dúvidas sobre a segurança do número. Ela afirma que posteriormente foi demitida. Segundo os relatos apresentados no processo, a companhia teria demonstrado preocupação com sua condição psicológica para voltar ao palco.
O caso também foi investigado pela divisão de Segurança e Saúde Ocupacional do Oregon, conhecida como Oregon OSHA. O órgão aplicou uma multa de US$ 8.070 ao Cirque du Soleil por violações relacionadas à segurança dos trabalhadores.
A fiscalização apontou falhas nos sistemas de prevenção de quedas e na investigação dos acidentes envolvendo artistas. A companhia recorreu de ao menos uma das penalidades, segundo informações divulgadas pela imprensa local.
Durante a investigação, o Cirque du Soleil teria argumentado que medidas adicionais de proteção contra quedas eram obrigatórias apenas em apresentações realizadas a partir de aproximadamente seis metros de altura. O número de Konfektova acontecia a cerca de 4,5 metros.
Dois anos antes do acidente, o órgão trabalhista já havia recomendado a ampliação das proteções contra quedas, incluindo a colocação de colchões ao redor das áreas de apresentação.
Após a queda, a companhia afirmou que interrompeu temporariamente o espetáculo, prestou atendimento imediato e encaminhou a acrobata ao hospital. Na ocasião, declarou que a saúde e a segurança de seus trabalhadores eram sua principal prioridade.
Os advogados de Konfektova citam outros 16 artistas que teriam sofrido ferimentos graves em apresentações do Cirque du Soleil nas últimas duas décadas. A ação também menciona três acidentes fatais ocorridos em Montreal, Las Vegas e Tampa.
Esses episódios são utilizados pela defesa da artista para argumentar que a companhia conhecia os riscos envolvidos em números realizados em grandes alturas.
O processo coloca em discussão a responsabilidade de uma das maiores empresas de entretenimento do mundo sobre a integridade de seus artistas. Embora o risco faça parte do espetáculo apresentado ao público, isso não elimina o dever de adotar medidas de prevenção e proteção no ambiente de trabalho.
Agora, caberá à Justiça norte-americana decidir se houve negligência, qual foi a responsabilidade da companhia e se Konfektova terá direito à indenização milionária solicitada.
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