Irmã ‘low profile’ amplia negócios da família Batista com entrada em mineração para fertilizantes

Irmã ‘low profile’ amplia negócios da família Batista com entrada em mineração para fertilizantes

Compartilhe essa notícia:

Em novembro passado, uma mineradora recém-nascida comprou o Complexo de Taquari-Vassouras, em Sergipe. Trata-se da única mina de potássio em operação no Brasil, um insumo estratégico para a produção de fertilizantes. 

Era a Stratos, criada em 2024 dentro da VL Holding, de Valére Batista, irmã de Wesley e Joesley. 

Enquanto os nomes da dupla se tornaram alguns dos mais conhecidos do capitalismo brasileiro, Valére ficou à frente de um braço muito mais discreto da família no agronegócio. 

Sem fotos públicas ou entrevistas à imprensa, a irmã Batista permaneceu à frente de um grupo concentrado em fazendas, criação de gado e gestão do próprio patrimônio.

Com a aquisição da mina em Sergipe, a companhia estreou na mineração – e ganhou relevância ao passar a controlar toda a produção nacional de um dos insumos mais sensíveis para o agronegócio brasileiro. É esse o macronutriente que aumenta a resistência das plantas à seca e a doenças e melhora a absorção de água.

Engenharia sucessória 

A origem da VL Holding remonta a 2005, quando foi constituída a VLBM Participações, controladora dos ativos que hoje compõem o grupo de Valére.

Segundo uma pessoa próxima à família, a empresa nasceu como parte do planejamento sucessório de José Batista Sobrinho, conhecido como Zé Mineiro, patriarca da família Batista e o fundador da JBS. 

Na época, ele criou uma holding para cada um dos seis filhos: VLBM (de Valére); JJMB (de Joesley); WWMB (de Wesley); VNMB (de Vanessa); VVMB (de Vivianne); e JJBJ (de José Batista Júnior, o Júnior Friboi).

Hoje, dentro da VLBM, Valére Batista detém 10% do capital. Os filhos, Aguinaldo Filho e Fabrine Batista Moreira, ficam com 45% de participação cada.

Valére, atualmente com 63 anos, é citada como uma acionista de perfil discreto e que não participa da administração do dia a dia da empresa. 

A gestão dos negócios da holding fica a cargo do CEO Daniel Moreira, casado com Fabrine desde 2013. É ele, também, quem comanda a Agroparanã, a principal empresa do grupo.

Negócios no campo

Antes de entrar na mineração, a trajetória da VL Holding foi construída inteiramente sobre a agropecuária. A Agroparanã está sediada em Iaciara (Goiás), onde mantém fazendas dedicadas à produção de grãos e à criação de gado Nelore – raça que tem como característica o cupim e que responde por 80% do rebanho de corte no Brasil.

Ao todo, a companhia reúne 55 mil hectares de terras distribuídas entre Goiás e Piauí. O grupo também mantém um sistema de confinamento para engorda do gado, além de fábrica de ração, laboratório próprio de fertilização in vitro (FIV) e programas de melhoramento genético voltados à raça Nelore.

Já a produção de soja e milho é uma forma de verticalizar a produção: parte dos grãos vira ração para alimentar o próprio rebanho.

Rebanho de bois da raça Nelore em área de pastagem, com dois animais em primeiro plano olhando para a câmera e outros ao fundo
Rebanho de bois da raça Nelore em área de pastagem (Crédito: Getty Images)

Apesar de pouco conhecida fora do agro, a Agroparanã organiza alguns dos principais leilões de gado Nelore do país. Desde 2022, a empresa promove o Leilão Fazenda Terra Prometida em parceria com a Nelore H&J, da dupla sertaneja Henrique & Juliano.

No evento, pecuaristas negociam bovinos e embriões da raça Nelore. A primeira edição, em 2022, faturou R$ 39,5 milhões com 108 animais – à época, o maior valor já registrado num leilão da raça no país. 

Nas três edições seguintes, o leilão bateu o próprio recorde, até atingir R$ 137,5 milhões em 2025. Em 2026, o faturamento recuou para R$ 133 milhões, interrompendo a sequência de máximas.

Segundo veículos especializados do setor, a parceria com Henrique & Juliano nasceu graças à amizade da dupla com Aguinaldo Filho, caçula de Valére.

Um elo entre a VL e a J&F 

A VL Holding é descrita por pessoas próximas como um negócio totalmente apartado da J&F – conglomerado dos irmãos Joesley e Wesley Batista que reúne JBS, Âmbar Energia, Eldorado Brasil, LHG Mining e Flora.

Mas as duas estruturas compartilham um nome em comum: Aguinaldo Gomes Ramos Filho, neto de seu Zé Mineiro, filho de Valére e sobrinho de Joesley e Wesley.

Hoje com 35 anos, Aguinaldo é presidente da J&F desde abril de 2021. Antes de chegar ao posto, acumulava nove anos de experiência no grupo: passou seis anos pela JBS, em que comandou as operações no Paraguai e no Uruguai, e depois presidiu a Eldorado Brasil Celulose.

Até fevereiro deste ano, ele também presidia a LHG Mining, empresa que concentra os negócios de mineração dos Batista.

Embora tenha deixado o comando executivo da companhia, Aguinaldo continua como administrador nos registros societários da mineradora – o que, na prática, lhe confere um papel formal na gestão e na representação legal da LHG Mining.

A companhia é descrita por uma pessoa próxima como a “empresa irmã” da Stratos, a dona da maior mina de potássio do Brasil.

Segundo a pessoa, as duas mineradoras operam de forma independente, mas compartilham conhecimento técnico e mantêm uma relação próxima por atuarem em negócios semelhantes dentro de diferentes ramos da família Batista.

Retrato de Aguinaldo Filho usando terno escuro e camisa branca, com os braços cruzados, olhando para a câmera diante de um fundo marrom.
Aguinaldo Filho, filho de Valére Batista, acionista da VL Holding e presidente da J&F.

A mina de potássio

Desde que assumiu a operação do Complexo de Taquari-Vassouras, a Stratos concentra seus esforços em ampliar a vida útil da mina.

A Mosaic, antiga controladora do ativo, estimava que as reservas de potássio ali sustentariam a operação até 2035.

Para prolongar esse horizonte, seria necessário dedicar algo em torno de US$ 25 milhões na abertura de novas áreas de extração e em pesquisas para identificar novas reservas – investimento que a multinacional americana decidiu não fazer.

Trabalhador com uniforme de alta visibilidade e capacete observa um túnel subterrâneo da mina de potássio de Taquari-Vassouras, em Sergipe, iluminado por uma lanterna e com marcas circulares de perfuração nas paredes de rocha
Mina de potássio no Complexo Mineroquímico de Taquari-Vassouras, em Sergipe (Créditos: divulgação/Mosaic)

Desde que assumiu a operação, a Stratos iniciou pesquisas para identificar possíveis novas reservas. Com base nesses estudos, a empresa afirma que a previsão de operação da mina passou de 2035 para 2042.

Com isso, a companhia também projeta elevar a produção de cloreto de potássio em 11% neste ano, para 550 mil toneladas. Para viabilizar o projeto de expansão, a companhia está em fase de negociação com potenciais financiadores.  

A aposta da VL Holding ocorre em um momento em que o Brasil tenta reduzir sua dependência externa de fertilizantes. Hoje, o país produz menos de 10% do potássio que consome.

Procurada, a VL Holding não concedeu entrevista.

Redação Veja Agro
Redação Veja Agro
Colunista
O Veja Agro é um site de notícias comprometido em trazer informações relevantes e atuais para nossos leitores.

Nossa equipe de jornalistas e colunistas está sempre a procura das notícias mais importantes para que você possa estar sempre informado sobre o que está acontecendo no mundo do agronegócio.

Aqui, o agro está sempre em foco!