Os traders globais de açúcar estão perdendo cada vez mais confiança no que é considerado um dos dados mais importantes do mercado: os indicadores de moagem de cana do Brasil, maior exportador mundial da commodity.
Após anos divulgando relatórios públicos aproximadamente a cada duas semanas com informações sobre o ritmo da colheita de cana e da produção de açúcar, a entidade brasileira do setor Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia) ficou repentinamente em silêncio no fim de junho, deixando o mercado sem dados de moagem referentes a um período de dois meses.
“Os mercados preferem até notícias negativas a incertezas”, afirmou Michael McDougall, analista da McDougall Global View. O fato de a Unica ter decidido não divulgar nenhum resultado referente a julho “certamente aumenta a percepção dos teóricos da conspiração de que existe algum motivo para o número não estar sendo mostrado”, acrescentou.
A entidade que representa as usinas de cana finalmente divulgou novas informações na quinta-feira, mas os números se concentraram apenas na produção de junho e foram publicados muito depois do cronograma habitual. Os dados que antes cobriam a atividade quinzenal passaram a apresentar informações mensais sobre a moagem.
A Unica não informou detalhes sobre a frequência e o período que serão abrangidos nos próximos relatórios. Em comunicado, disse que continuará compilando e divulgando os dados de moagem “sujeitos às prioridades institucionais da organização e à disponibilidade de sua equipe técnica”.
A falta de transparência é considerada relevante porque a safra brasileira de cana-de-açúcar é acompanhada de perto por traders de commodities e investidores em todo o mundo.
O Brasil responde por aproximadamente 54% das exportações globais de açúcar, e suas usinas também podem direcionar a cana para a produção de etanol. Os dados da Unica sobre moagem e produção de açúcar sempre foram um indicador fundamental para avaliar a oferta mundial da commodity.
Quando o ritmo da colheita é forte, aumenta a expectativa de maior disponibilidade de açúcar no curto prazo.
Agora, traders estão buscando informações alternativas, conversando diretamente com usinas ou analisando outros conjuntos de dados menos robustos divulgados pelo governo brasileiro.
“A credibilidade de uma instituição é construída ao longo de décadas, mas pode ser prejudicada por uma única decisão equivocada”, afirmou Arnaldo Correa, fundador da Archer Consulting. “O mercado não pune a informação; ele pune a ausência dela”, escreveu em uma nota enviada aos clientes no fim de semana.
Os dados divulgados na quinta-feira, referentes ao período encerrado em junho, mostram que a moagem de cana no Brasil ficou levemente acima do registrado no ano anterior.
Foram processadas 214,5 milhões de toneladas de cana na temporada, alta de quase 4% em relação ao mesmo período anterior.
Apenas em junho, porém, a moagem caiu 15%, pressionada por chuvas fora de época que prejudicaram os trabalhos nas usinas.
Os traders também acompanham o chamado mix de produção, que indica a parcela da cana destinada ao açúcar ou ao etanol.
Apesar de os preços do etanol estarem pressionados no Brasil devido à demanda fraca, a produção do biocombustível cresceu 20% na comparação anual, segundo dados da Unica até o fim de junho. Cerca de 58% do caldo de cana foi destinado à fabricação de etanol.
Embora as chuvas tenham afetado a colheita em junho, há sinais de que as usinas aceleraram a produção no mês seguinte.
Dados do Ministério da Agricultura indicam que as usinas processaram cerca de 53 milhões de toneladas de cana nas duas primeiras semanas de julho, enquanto empresas correram para aumentar o processamento diante do temor de que um forte fenômeno El Niño possa trazer mais chuvas e interromper os trabalhos no campo no fim da temporada.
A consultoria Datagro afirmou nesta semana que as usinas estavam “quebrando recordes diários de moagem nas últimas semanas”, reduzindo a flexibilidade para direcionar a cana ao açúcar.
Os contratos futuros de açúcar bruto subiram em Nova York na quinta-feira, com investidores concentrados nos preços elevados da commodity em outro importante produtor global: a Índia.
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