
A Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) investiga em qual condição os drones agrícolas geram ganho real de eficiência nas lavouras capixabas. Os estudos ocorrem no campus de São Mateus, no norte do estado, em parceria com a Fotus Agro. O foco recai sobre café conilon, pimenta-do-reino e outras culturas estratégicas para a economia do Espírito Santo.
A pauta chega em um momento decisivo para o campo capixaba. Conforme o 2º Levantamento da safra de café da Conab, a produção brasileira de 2026 deve bater recorde histórico, com 66,7 milhões de sacas, alta de 18% sobre o ciclo anterior. O conilon, base da produção capixaba, vem na esteira dessa expansão e pressiona o produtor a buscar manejo mais preciso para sustentar o desempenho.
O salto recente confirma o protagonismo da cultura no estado. De acordo com o levantamento Produção Agrícola Municipal do IBGE, o valor da produção de café capixaba subiu quase 77% em 2024 e atingiu R$ 16,7 bilhões, enquanto a pimenta-do-reino mais que dobrou de valor e somou R$ 2,2 bilhões. São lavouras de alto retorno, mas vulneráveis a clima e maturação irregular, instabilidade que o manejo de precisão por drone busca atenuar.
As pesquisas medem deposição de gotas, taxa variável, dispersão de sólidos e viabilidade operacional. “Os estudos têm como foco gerar conhecimento aplicado, que possa futuramente orientar o uso mais eficiente dessas tecnologias no campo”, destaca o professor Edney Leandro da Vitória, responsável pelo trabalho na Ufes.
Para a Fotus Agro, o acompanhamento já gera retorno técnico. “Essa troca com a universidade permite evoluir o produto com base em evidências técnicas, ao mesmo tempo em que apoia a formação de novos profissionais”, afirma Rodolfo Stanke, gerente da empresa.
Os estudos estão em fase inicial e serão publicados pela Ufes em artigos científicos, com a expectativa de virar orientação prática para o produtor capixaba.
O relevo acidentado do estado limita o maquinário tradicional em boa parte das lavouras de encosta. O drone alcança terrenos declivosos onde o trator não entra e dispensa plataforma de decolagem, vantagem que pesa nas regiões de café de montanha. O fluxo de ar descendente dos rotores empurra a calda para dentro do dossel e favorece a penetração nas folhas internas da planta.
O ganho, porém, ainda não está fechado para o café. A aplicação por drone usa volume de calda reduzido e pode depositar menos produto no dossel que o pulverizador terrestre, conforme apontam estudos da cafeicultura com aeronaves remotamente pilotadas. A deposição uniforme depende de ajuste fino de volume, altura e velocidade de voo, exatamente o ponto que a pesquisa da Ufes busca calibrar para o conilon capixaba.
O grupo do professor Edney já mediu o comportamento da calda em conilon sob diferentes taxas e alturas de voo. O trabalho avalia desde a deriva da pulverização até a deposição em cada terço da planta, em experimento conduzido em lavoura comercial de café conilon. O objetivo é transformar o ajuste operacional em recomendação prática para o cafeicultor do Espírito Santo.
A pesquisa mira dois ganhos diretos no bolso do cafeicultor. O primeiro é a uniformidade: quanto mais parelha a aplicação, menos defensivo se perde no chão e melhor a planta é protegida. O segundo é a taxa variável, que ajusta a dose conforme a necessidade de cada parte da lavoura em vez de aplicar tudo igual.
O resultado aparece no custeio. Drones com tanque de até 50 litros podem cortar em até 30% o consumo de defensivo e de água na operação. Menos calda significa menos abastecimento, menos viagem e, portanto, menos produto comprado a cada safra.
O equipamento usado nos testes, um EAVision doado pela Fotus Agro, carrega sensores de alta precisão. Além de pulverizar, o drone também espalha sólidos como fertilizante e semente, o que amplia o uso do mesmo aparelho ao longo do ano.
Sim, o operador precisa de cadastro na Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e registro do equipamento e da operação junto ao Mapa, conforme a regulamentação vigente. O Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag) estima que boa parte da frota nacional ainda opera sem essa formalização, o que expõe o produtor a multa e a risco no espaço aéreo. Regularizar é etapa anterior ao primeiro voo na lavoura.
Não! O drone rende mais em áreas de encosta, talhões pequenos e fases que exigem entrada rápida sem amassar a cultura. Em lavouras planas e extensas, por outro lado, o pulverizador autopropelido ainda cobre mais hectares por hora. A escolha depende de relevo, tamanho da área e janela de aplicação, e não de uma troca direta.
O café conilon e a pimenta-do-reino concentram o interesse por estarem em terrenos acidentados onde o maquinário terrestre tem acesso limitado. Como são as culturas de maior renda do estado, o ganho de eficiência se traduz em retorno financeiro mais alto por hectare, o que justifica priorizar os testes nelas.
Depende da escala. Para áreas menores, contratar prestador costuma diluir melhor o custo do que imobilizar capital no equipamento, ao passo que acima de certo volume de hectares por safra a compra tende a compensar. É exatamente esse ponto de equilíbrio que a pesquisa da Ufes busca quantificar com o custo por hectare.
A frota brasileira saltou de cerca de 3 mil drones em 2021 para 35 mil em 2025, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O Sindag projeta 100 mil equipamentos no campo em até três anos, com alerta para a parcela ainda irregular da frota. Os modelos mais robustos já mostram a escala da tecnologia: drones de plantio semeiam até 50 hectares por dia, número que reforça o avanço da aplicação aérea também no café.
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