
Mato Grosso do Sul provou que terra cansada volta a produzir. O estado recuperou 3,3 milhões de hectares de pastagem degradada entre 2010 e 2024. A área equivale a quatro vezes o território de Campo Grande, segundo relatório da Semadesc com base em dados do MapBiomas. O caso ajuda a dimensionar o potencial de áreas degradadas no Brasil ainda à espera de conversão produtiva.
O resultado ganhou destaque no Fórum Internacional da Agropecuária, o FIAP 2026, realizado neste mês na capital sul-mato-grossense. O estado cortou pela metade sua área de pasto degradado, de 6,2 milhões para 2,9 milhões de hectares, com avanço da integração lavoura-pecuária-floresta e de práticas de conservação de solo.
Por outro lado, o cenário nacional segue com larga margem para repetir o feito. Estudo da Embrapa aponta cerca de 28 milhões de hectares de pastagens degradadas aptos à conversão em lavoura, montante que ampliaria em torno de 35% a área de grãos do país, conforme artigo publicado na revista Land.
A virada sul-mato-grossense não veio de abertura de terra nova. Veio de manejo. A degradação ocorre quando o pastejo excessivo, a falta de adubação e a erosão derrubam a capacidade de suporte do pasto, o que reduz a lotação animal por hectare. Recuperar essa área, portanto, reverte o ciclo e devolve produtividade ao mesmo terreno.
O estado apostou em três frentes que se reforçam: integração lavoura-pecuária-floresta, capim consorciado com grãos e fixação biológica de nitrogênio. Cada uma ataca a degradação do solo por um ângulo diferente.
O gargalo histórico da recuperação sempre foi caixa para bancar a reforma. Esse ponto começou a ceder. O programa Caminho Verde Brasil, do Mapa, disponibilizou R$ 30 bilhões em crédito viabilizados pelo leilão do Eco Invest, com a meta de recuperar até 40 milhões de hectares de áreas degradadas em dez anos.
A engenharia financeira passa pelo Banco do Brasil. O Governo Federal e o BB estruturaram um modelo para atrair investidores ao financiamento da agropecuária sustentável, com o Fiagro Multimercado entre os mecanismos, segundo o coordenador do programa, Pedro Cunto, no FIAP 2026. O esforço anual estimado gira em torno de US$ 6 bilhões.
Antes de tomar recurso, o produtor precisa dimensionar o retorno da área. Compare custo da reforma, ganho esperado de lotação e prazo de carência ao simular a linha de crédito mais adequada para recuperar a pastagem, sobretudo onde o consórcio com grãos antecipa receita e reduz o tempo sem caixa.
O programa mira a conversão de áreas degradadas em sistemas produtivos sustentáveis. O recurso atende projetos que adotem práticas como ILPF, plantio direto, fixação biológica de nitrogênio e silvicultura, alinhados ao Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas. As condições de prazo e carência seguem o desenho da operação no Banco do Brasil, que estrutura o financiamento junto a investidores via Fiagro.
O valor varia com o grau de degradação e a rota escolhida. A reforma total, com correção de solo e novo plantio, é a mais cara, enquanto a recuperação por consórcio com grãos dilui o custo na receita da lavoura. Áreas em grau 1 ou 2 exigem apenas adubação de manutenção e ajuste de lotação, investimento bem menor que a reconstrução completa de talhões em grau 3 ou 4.
O retorno depende do sistema. O consórcio com grãos gera caixa já na primeira colheita, enquanto a reforma só de pasto costuma exigir de dois a três ciclos para cobrir o custo pelo ganho de lotação e de peso do rebanho. A carência das linhas de crédito voltadas à conversão tende a acompanhar esse prazo de maturação, o que evita aperto de caixa no início.
Serve para os dois, conforme a aptidão da área. Dos 28 milhões de hectares mapeados pela Embrapa, a fração com degradação intermediária e severa em solo apto pode receber grãos diretamente. O cruzamento com o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) e o Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) confirma se o talhão comporta agricultura ou se a melhor rota é a pecuária intensificada.
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