
A previsão para o inverno de 2026, divulgada em nota técnica do Inmet e do Inpe, confirma El Niño no trimestre julho-agosto-setembro. O documento aponta calor acima do normal em todo o país e chuva com comportamento oposto entre as regiões.
O fenômeno é monitorado num trecho do Oceano Pacífico chamado Niño 3.4, onde a água do mar está mais quente que a média desde março. Com base nesse aquecimento, o APEC Climate Center estima 100% de chance de El Niño no trimestre e 99,4% de chance de ele ser de forte intensidade.
A chuva prevista separa o mapa em dois. O Sul recebe volume acima da média, com até 100 mm a mais no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, enquanto Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste ficam com chuva abaixo ou perto da média.
O calor, por outro lado, atinge todo mundo. A previsão indica temperatura acima da média em todas as regiões, passando de 1 °C no Norte, no Maranhão, no miolo do Centro-Oeste e no oeste de Minas. Só o centro-sul do Rio Grande do Sul deve ficar perto da média.
El Niño nasce do aquecimento fora do normal das águas do Oceano Pacífico, na linha do Equador. Esse calor muda o caminho da chuva no Brasil. No inverno, ele empurra a umidade para o Sul e deixa o resto do país com tempo mais seco. Por isso, o trimestre junta chuva demais no Sul e secura crescente no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste.
Onde falta chuva, o calor piora o cenário. Com a temperatura alta, o solo e as plantas perdem água mais rápido. Dessa forma, a terra seca antes do esperado e o risco de falta de água sobe mesmo onde a chuva fica perto da média. O retorno do fenômeno já vinha sendo acompanhado em boletins recentes sobre o aquecimento do Pacífico.
No Norte, a pouca chuva somada ao calor reduz a água armazenada no solo. Quem mais sente são as pastagens, as culturas perenes e a agricultura familiar, principalmente em solos arenosos que seguram pouca água.
No Nordeste, o foco é a lavoura que ainda não fechou o ciclo. O tempo seco ajuda a maturação e a colheita do feijão de terceira safra mais adiantado. Já nas lavouras ainda em crescimento ou em floração, a falta de água pode prejudicar o florescimento e o enchimento dos grãos. Com menos pasto, cresce a necessidade de complementar a alimentação do rebanho.
No Centro-Oeste, a chuva perto da média ajuda a colheita do milho segunda safra, do algodão e da cana. Mesmo assim, o calor pode apertar a falta de água em agosto e setembro, afetando o pasto e a água usada na pecuária, com reflexo na umidade para o início da próxima safra.
A chuva acima da média favorece o trigo, a aveia e as demais plantas de inverno no Sul. O problema é a combinação: muita água junto com calor um pouco acima do normal cria ambiente perfeito para fungos. Por isso, o excesso de umidade aumenta o risco de doenças nas plantas e cobra vistoria frequente e aplicação preventiva.
Há, porém, um ganho importante para a região. O céu mais nublado e o calor diminuem a chance de geada fora de hora. Assim, cai o risco de geada tardia, que costuma queimar trigo, aveia e lavouras perenes do Sul. Vale acompanhar o efeito do frio conforme a fase de cada lavoura na entrada de ar frio, já que o estrago muda conforme o estágio da planta.
No Sudeste, a chuva perto da média favorece o trigo e a aveia, com mais água armazenada no solo no sul de São Paulo. Por outro lado, o calor pode encurtar o ciclo das plantas, reduzir o tempo de enchimento dos grãos e abrir espaço para doenças nas folhas. No café, o tempo ajuda a colheita e, depois, floradas mais parelhas, desde que a chuva volte na hora certa.
Diante de um inverno tão dividido, vale rever a forma de proteger o resultado da safra antes que o quadro se confirme. Uma saída é avaliar a proteção da lavoura contra seca e excesso de chuva.
A força do fenômeno é medida pelo tanto que a água do mar fica acima da média. Acima de 1,5 °C de desvio na região Niño 3.4, o evento entra na faixa forte. Quanto mais quente o mar, mais marcante tende a ser o efeito no Brasil. Na previsão para o inverno de 2026, o APEC Climate Center estima 99,4% de chance dessa faixa forte entre julho e setembro.
No Brasil, o inverno vai de 21 de junho a 22 de setembro de 2026. A estação também traz episódios de friagem, com entrada de ar frio que pode chegar a Mato Grosso, Rondônia, Acre e sul do Amazonas. O ar seco favorece queimadas e exige cuidado redobrado com fogo dentro e no entorno da propriedade.
Pode valer, por causa do calor. A temperatura acima do normal faz a planta perder mais água, então a chuva “na média” pode não dar conta da demanda do dia a dia. Antes de decidir, o produtor pode conferir o balanço de água do solo no Sisdagro, ferramenta gratuita do Inmet, que mostra se a reserva está caindo na sua região.
Muda o calendário de comida e água do rebanho. No Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste, o pasto rebrota mais devagar e a água das fontes pode baixar a partir de agosto. No Sul, o excesso de chuva e o tempo úmido favorecem problemas sanitários nos animais. Em ambos os casos, antecipar a reserva de forragem reduz o aperto na hora errada.
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